8.12.06
na loteria.
a fada ignorante no começo ficou desconfiada. ninguém joga por aí uma coisa tão preciosa do jeito que ele estava jogado. mas é fato, quando conheceu ele, é assim que estava, jogado. ela tinha dois esparadrapos no coração e não sabia se queria mais. os esparadrapos estava jogado, que nem ele. quando recebeu os esparadrapos de presente, ela não sabia onde colocar, então abriu o coração e jogou lá dentro, pra decidir o que fazer só depois. como os esparadrapos e ele estavam jogados, ela decidiu catar e ficar com os dois. ela deu carinho e fez amor. hoje a fada não tem mais esparadrapo no coração. e nem ele está por aí jogado. hoje ele tem dona, tem uma quase casa, tem carinho e tem sonhos, desses que só dá pra ter juntos.
16.11.06
confortably.numb
[ou me empreste suas penas]
tem feridas no corpo da fada que não criam casquinha nunca. elas não saram. defeito congênito do sangue da fada ignorante. vez ou outra elas voltam a doer, latejam e abrem um pouquinho mais a distância que separa um pedaço de pele do outro. há dois dias o corpo da fada está cheio de queimaduras do passado que não têm cura, e não tem ópio, não tem realidade alternativa nem futuro feliz que faça a tristeza sarar. cada dia a fada afunda um pouquinho mais no desespero de se sentir pequena e desamparada. foi sempre assim, ela fica tão pequenininha que as pessoas não conseguem vê-la, senti-la ou se importar com ela. durante o sono, o amor fez um buraco enorme no coração da fada. mal sabia ele que o buraco não ia fechar nunca. porque tem dias em que a gente acorda se sentindo a pessoa mais feia do mundo. e hoje a fada só queria se sentir apenas a pessoa mais feia do mundo.
o tempo passou e a dor ficou.
tem feridas no corpo da fada que não criam casquinha nunca. elas não saram. defeito congênito do sangue da fada ignorante. vez ou outra elas voltam a doer, latejam e abrem um pouquinho mais a distância que separa um pedaço de pele do outro. há dois dias o corpo da fada está cheio de queimaduras do passado que não têm cura, e não tem ópio, não tem realidade alternativa nem futuro feliz que faça a tristeza sarar. cada dia a fada afunda um pouquinho mais no desespero de se sentir pequena e desamparada. foi sempre assim, ela fica tão pequenininha que as pessoas não conseguem vê-la, senti-la ou se importar com ela. durante o sono, o amor fez um buraco enorme no coração da fada. mal sabia ele que o buraco não ia fechar nunca. porque tem dias em que a gente acorda se sentindo a pessoa mais feia do mundo. e hoje a fada só queria se sentir apenas a pessoa mais feia do mundo.
o tempo passou e a dor ficou.
24.10.06
feliz, amor. feliz.
era aniversário dele. o primeiro aniversário dele morando com ela. desde quando a bancada do computador dele resolveu se mudar para o apê da cardeal, em frente ao cemitério, a idéia fixa de amá-lo cada vez mais não saía da cabeça da fada. mas a neurose virou psicose obsessiva-compulsiva com a chegada do dia 22. ele era do último dia de libra, ainda bem, porque se fosse do primeiro dia de escorpião a fada tinha quase certeza de que eles não iriam combinar assim tão bem. ela fez uma lista imaginária e se preparou para colocar planos em ação. ela iria conquistar o mundo para ele. comprar presentes escondido, fazer brincadeiras e fazer surpresas. mas ele tem um sexto sentido danado, sentiu as surpresas chegando e correu para lá. foi tanto desespero para o pobre coraçãozinho da fada que ela meteu os pés pelas mãos e fez da noite uma conversa pesada, com um tantinho de chuvisco no céu. nada que uma marguerita frozen e várias canecas de chopp não curem. nada que sorrisos sem embrulho de presente não façam passar. ainda bem. ainda bem.
16.10.06
dezesseispontodez
a noite levou os desejos, o sorriso e o espanto da fada. a cara ficou estilhaçada, junto com as palavras que voaram e caíram partidas em sílabas. no final da noite, ninguém mais queria ser o dono da verdade. quando dois corações que se amam se magoam, a razão faz as malas e tira férias do paraíso. fica lá com a cara na vidraça até a raiva passar. até o silêncio deixar só um rastro de tristeza e levar a amargura para a estação rodoviária, para o ponto de táxi, para um mundo distante, para uma das luas de saturno.
10.10.06
sobre os jardins.
eu poderia inventar uma vida com final feliz para mim em qualquer uma daquelas casas bonitas.
1.10.06
quase lá.
a fada aproveitou para postar o que quisesse. fazia uma semana que ele não olhava para os pensamentos que a vida dela levava, o que significava que dava tempo de ela postar o que quisesse, se arrepender ou não, apagar, e ele nem iria saber. como ele não sabia também que a noite que ela disse que ia passar dançando ela ficou chorando. como ele também não conseguia enxergar toda a tristeza que estava por trás daquele dia-a-dia. não foi só o pé de arruda que morreu, não foram só as novidades da quarta-feira que passaram. a vida também passava todo dia. e embora a fada quisesse achar um culpado, a tristeza estava dentro dela. não havia nada que ele ou a vizinha de cima pudessem fazer. presente nenhum no mundo poderia comprar um sentimento, apesar da dor de tudo o que ele pensava ficar presa dentro dela. ele sempre lia o signo dele, mas nunca parou para ouvir o que o signo da fada realmente queria dizer com a tal lua brigando com o ascendente, sem sol em saturno, sem sol em lugar algum na grande são paulo.
a casa está azul. e não há tintas para pintar as paredes.
a casa está azul. e não há tintas para pintar as paredes.
28.9.06
fazendo listas.
a fada nem ligou dele ter feito bagunça na sala, porque ela também achava que encher a casa de flores era uma boa idéia. a mania de regras ela decidiu deixar de lado, definitivamente não fazia mais sentido querer ter regra pra tudo. as coisas que aprendessem a se resolver sem regras, problema delas. só faltava agora encontrar uma hora diferente para o amor, decidir o que fazer com o cabelo, enviar o presente, preparar a caixa e ser feliz.
27.8.06
delírio tropical.
enquanto isso, na casa da fada, as coisas teimam em não pararem quietas num lugar só. na brincadeira das danças da cadeira a música não pára de tocar. e ele entende e sai para dançar com ela numa tarde de domingo, rumo a lugar nenhum, delirando e se perguntando onde no butantã haveria de caber tanto amor. onde?
10.8.06
tudo em seu lugar.

quando é no meio da noite a fada ignorante acorda assustada, com as batidas do coração dele colorindo o quarto de novo. bagunçando a casa. enchendo a geladeira e ajudando a desfazer a cama todas as noites. e como a fada sabe que nesse mundo não existe sina, ela escolhe todos os dias escolher de novo. ela escolheu ele de novo. ontem. antes de ontem. antes de antes e ontem. e antes mesmo de saber.
28.7.06
ensaiando.
e a fada ignorante aprendeu que nesse mundo o que há de mais complicado sempre foi e ainda é o bicho gente.
20.7.06
para viver um grande amor.
o que você vai precisar:
1 tubo de cola
3 alfinetes de segurança
1 galinha (não precisa ser preta)
1 desejo
atenção crianças, não peçam ajuda a ninguém mais velho, nem mais novo, nem da mesma idade, a ninguém.
como fazer:
[] cole um coração no outro e espere secar. guarde um pouco da cola pois, caso os contratempos dividam em dois novamente, você vai precisar grudar tudo outra vez. mas não vire grude. tem gente que não gosta de mascar chiclete.
[] com um alfinete de segurança prenda o coração nele. com o outro, prenda o coração em você. e por via das dúvidas use o terceiro para se prender nele. porque ficar no pé não é necessariamente virar grude.
[] mate a galinha. esse é um ato simbólico que vai influenciar sua vida para sempre. não tenha pena. mate a galinha. e não deixe ele comer!
[] faça um desejo que valha para os dois. e deseje todo dia a mesma coisa. e a mesma pessoa. porque só dá certo se o desejo for um só.
há três dias é sexta-feira e a beleza cansa.
1 tubo de cola
3 alfinetes de segurança
1 galinha (não precisa ser preta)
1 desejo
atenção crianças, não peçam ajuda a ninguém mais velho, nem mais novo, nem da mesma idade, a ninguém.
como fazer:
[] cole um coração no outro e espere secar. guarde um pouco da cola pois, caso os contratempos dividam em dois novamente, você vai precisar grudar tudo outra vez. mas não vire grude. tem gente que não gosta de mascar chiclete.
[] com um alfinete de segurança prenda o coração nele. com o outro, prenda o coração em você. e por via das dúvidas use o terceiro para se prender nele. porque ficar no pé não é necessariamente virar grude.
[] mate a galinha. esse é um ato simbólico que vai influenciar sua vida para sempre. não tenha pena. mate a galinha. e não deixe ele comer!
[] faça um desejo que valha para os dois. e deseje todo dia a mesma coisa. e a mesma pessoa. porque só dá certo se o desejo for um só.
há três dias é sexta-feira e a beleza cansa.
16.7.06
from home.
a fada ignorante chorou três dias inteiros. e brigou até a orelha não querer mais saber do telefone. depois fez as pazes e ficou duas tardes pensando em como poderia ter feito as joaninhas encontrarem seus lugares na caixa sem ter que gritar com elas. as joaninhas eram metade dela e metade dele. melhor gritar só com a metade dela da próxima vez. pensando bem, a fada achava melhor nem haver próxima vez. as joaninhas já estavam guardadas e pronto. nessas duas tardes a fada também ficou se perguntanto o quanto era namorada e o quanto era mais do que namorada dele. será que o comportamento da década de trinta voltaria a ficar em voga? desde que se apaixonou por ele a fada não sabia mais como se comportar, principalmente agora que eles moram juntos mas ele está longe. e ela caminha sobre ovos brancos, tentando adivinhar onde as vontades dele e as dela se encontram.
a casa caiu e a varanda continuou de pé.
a casa caiu e a varanda continuou de pé.
12.7.06
neverland.

[porque todas a canções são, de alguma forma, canções de amor]
antunes.
e a fada dormiu feliz, depois de um dia cheio de quase boas notícias. depois de falar com ele um monte de vezes no telefone. depois de desejar boa sorte na prova, jogar as responsabilidades para o alto e sair para comer pipoca com os amigos. a fada decidiu continuar ignorante e, em vez de ler livros, ela agora dorme com eles, para aprender por osmose o pouco que lhe convém saber da vida. a fada agora sonha todos os dias, o dia inteiro, com seu príncipe encantado sem cavalo alado e sem castelo de hipocrisia. ela sonha que na casa não existem malas, de modo que ninguém nunca pode ir embora de lá assim por tanto tempo, a não ser que carregue tudo da casa junto. e leve ela também.
uma semana passou e a saudade não passa.
7.7.06
fada.ignorada
a fada acordou e enviou uma mensagem para ele. pagou as contas e fez florzinhas para nossa senhora. depois enviou outra. recebeu uma e mandou a mesma mensagem duas vezes. meio dia ela se arrependeu de ter pedido para ele não ligar e descobriu de onde saiu o nome fada ignorante. descobriu também que se a itália ganhar a fada ganha o bolão. ficou feliz e mandou outra mensagem. e mais outra. e outra. e mandou a mesma mensagem várias vezes. depois esperou. lembrou dele e sentou no colo da amiga. provavelmente essa vai ser a única chance da fada de sentar no colo de alguém durante esse mês invernal. comeu doce para acalmar os ânimos e desanimou. chegou em casa, acendeu um cigarro atrás do outro e esperou de novo. e esperou. e viu a bia falcão se dando bem no quase final da novela. e esperou. e esperou. e o telefone tocou. era a amiga de longe, como sempre fazendo inveja. o que não é difícil, porque qualquer coisa é melhor do que ficar no frio, sozinha, em casa, sentada, fumando e esperando. mas a fada sempre fica feliz com esse tipo de inveja, porque sonha que um dia a vida pode ser diferente para melhor de novo. e depois da amiga, foi a vez dele falar no telefone. mas a fada já estava cansada demais. chateada demais. e também já tinha chorado demais de saudade. e como tudo tem sido demais e justamente por isso ela tem pensado demenos, resolveu não conversar. só até a tristeza passar e a casa ficar em tons de azul de novo. e foi então que a fada ignorante viu que continuava desaprendendo tudo o que sabia de bom da vida. abriu uma latinha de cerveja, conversou com outra amiga e constatou que era verdade, a fada estava ficando cada vez mais ignorante.
o buraco está maior, o copo encolheu e sumiu.
o buraco está maior, o copo encolheu e sumiu.
6.7.06
safety.pin
a fada encontrou um alfinete de segurança no meio da sala de casa. pegou. desinfetou com álcool e prendeu no coração. vai esperar ele voltar para prender no dele também. todo dia ela sente uma alfinetada de saudade, não sabe se vem do alfinete ou do coração.
três pás de areia foram jogadas no buraco. mas não tapou.
três pás de areia foram jogadas no buraco. mas não tapou.
4.7.06
.o começo
foram os últimos dias. e lá se foram os últimos dias. todas as coisas de amor que deveriam ser feitas e ditas estavam anotadas em sua cabeça. lembretes para aumentar a bagagem de boas lembranças durante o tempo em que ele estaria longe. mas o estado de espírito fez crescer minhocas na cabeça da fada, e despedaçou os sorrisos dos últimos dias. a mala foi feita e tanta coisa ficou para trás, esperando ele voltar. pobre fada ignorante, resolveu escutar suas minhocas em vez de ouvir as batidas do coração dele antes de dormir. e ficou com muito mais do que saudade, ficou com um monte de coisas para aprender. ela tem um mês até ele voltar, para voltar a ser a fada madrinha dele.
o copo está metade vazio e metade sem água.
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