[ou me empreste suas penas]
tem feridas no corpo da fada que não criam casquinha nunca. elas não saram. defeito congênito do sangue da fada ignorante. vez ou outra elas voltam a doer, latejam e abrem um pouquinho mais a distância que separa um pedaço de pele do outro. há dois dias o corpo da fada está cheio de queimaduras do passado que não têm cura, e não tem ópio, não tem realidade alternativa nem futuro feliz que faça a tristeza sarar. cada dia a fada afunda um pouquinho mais no desespero de se sentir pequena e desamparada. foi sempre assim, ela fica tão pequenininha que as pessoas não conseguem vê-la, senti-la ou se importar com ela. durante o sono, o amor fez um buraco enorme no coração da fada. mal sabia ele que o buraco não ia fechar nunca. porque tem dias em que a gente acorda se sentindo a pessoa mais feia do mundo. e hoje a fada só queria se sentir apenas a pessoa mais feia do mundo.
o tempo passou e a dor ficou.