a fada tentava guardar as lembranças da pressa na parada de ônibus. e escondia as migalhas da noite anterior pela sala. tão ignorante ela tentou matar sua própria alma, numa ânsia louca de acabar com os círculos e com o destino, coisas tão particulares do espírito que se derramava vida afora mesmo sem se saber. a fada sabia que era sozinha no mundo, como todas as criaturas que nascem e morrem todos os dias. tinham lhe dito que a felicidade só depende de suas duas pernas e de seus dois braços para ser construída. mas que grande bobagem! ela sabe muito bem que não existe felicidade. o que existe é a palavra felicidade, como se inventar neologismos fosse a mesma coisa que criar sentimentos e objetivos de vida. segundo o dicionário a felicidade é um estado, e estados não são, não existem, eles nascem pela necessidade de se ter alguma certeza para levantar de manhã cedo da cama. decidiu roubar frases em vez de inventar. e não desejava mais a felicidade porque a sabia impossível. para onde vão as coisas depois que morrem? não as coisas materiais, mas as inventadas. quando uma certeza morre, onde ela é enterrada?
as portas devem sempre ficar fechadas, até chegar a hora de dormir.